Fonoaudiologia   Psicopedagogia   Psicologia   Neuropsicologia
Presencial e Online | São Paulo - SP
11 94338-8535
Blog ReEscreva

Linguagem oral: fundamental para aprendizagem e comportamento

Compartilhe:

Em outros artigos do site você encontra informações sobre o desenvolvimento da linguagem oral. Aqui será descrito a relação da linguagem com a aprendizagem e os comportamentos.

A linguagem é essencial para a aprendizagem acadêmica!

As habilidades básicas que permitem ao escolar adquirir conhecimentos das diversas disciplinas são a leitura e a escrita. Ler bem, com fluência, propicia ao indivíduo acessar informação e construir conhecimento.

O nosso sistema de escrita é alfabético, ou seja, ao fazer a associação entre letras e sons, podemos decodificar o material escrito.

O domínio fonológico (sons da fala) tem forte influência no momento inicial da leitura e da escrita: ao aprender as letras, a criança precisa acessar os sons correspondentes para que, aos poucos, as associações entre letras e sons estejam fortes e sejam automatizadas.

Para compreender o que lê, o aluno acessa o significado das palavras, associa com o significado de outras palavras da mesma sentença e infere o conteúdo. Para escrever, também é necessário que tenha vocabulário para uso diversificado de palavras, assim como habilidade de construção frasal.

Muitos estudos indicam que o domínio linguístico na pré escola é fundamental para aquisição de leitura e escrita nos anos do ensino fundamental. Um destes estudos mostrou que a habilidade de compreensão oral aos três anos de idade influência a capacidade de compreensão, conhecimento fonológico e vocabulário aos quatro anos e meio. Estas habilidades aos 4,6 anos determinam o desempenho da criança para decodificar no 1º ano e compreender textos no 3º ano.

Então, quando uma criança tem dificuldades para desenvolver leitura e escrita, devemos fazer as seguintes perguntas:

Situação A:

A criança não consegue aprender a relação entre cada letra e seu som. Por exemplo, conhece todas as letras, mas não memoriza que a letra P tem o som /p/, que a letra B tem o som /b/, etc.

Perguntas:

A criança tem um sistema de sons organizado? Identifica quando ouve P e B, ou se confunde às vezes? Consegue fazer rimas, bater palmas para cada sílaba de uma palavra ouvida, perceber que algumas palavras começam com o mesmo som? Demoram para falar o nome das coisas, troca os nomes ou não consegue pronunciar corretamente palavras grandes e pouco ouvidas?

Situação B:

A criança ou adolescente lê corretamente, mas não compreende. Ou compreende palavras que lê, mas não entende textos maiores.

Perguntas:

Ele lê com fluência? Como é o vocabulário deste leitor? Ele tem conhecimento armazenado para poder entender enquanto está lendo? Ele consegue manter os significados na memória enquanto precisa terminar de ler o texto? Ele consegue se lembrar dos significados que acessou para poder associá-los? Entende figuras de linguagem?

Situação C:

O aluno tem muitos erros na escrita.

Perguntas:

A criança memorizou e automatizou todas as relações entre letras e sons? Percebe a diferença entre os sons, por exemplo, entre /f/ e /v/, para poder escrever corretamente VACA ou FACA? Compreendeu e memorizou as regras ortográficas? Entendeu que existem letras que tem múltiplos sons? Aprendeu uma estratégia de memorização? Conseguiu automatizar?

Situação D:

O aluno não tem muitos erros ortográficos, mas não desenvolve um bom texto.

Perguntas:

Este aluno consegue falar bem, argumentar e organizar suas ideias verbalmente? Tem vocabulário diversificado e conhecimento para expor? Identifica o objetivo do texto proposto?

As dificuldades relatadas acima podem ocorrer por déficits em habilidades como atenção, memória, funções executivas, motricidade, etc. As questões propostas referem-se apenas à linguagem e servem para nortear a observação e avaliação das crianças e adolescentes que chegam com queixa de leitura.

Muitos pacientes fazem a avaliação fonoaudiológica, apenas do processamento auditivo e não englobam a área de linguagem. Alguns chegam com diagnóstico de dislexia, que é dificuldade específica em leitura/escrita. Mas ao avaliar, nos deparamos com déficits em linguagem oral, cuja presença é fator de exclusão para o diagnóstico de dislexia. Maior que o problema do nome errado do diagnóstico, é que esta habilidade, nestes casos, não é considerada na conduta terapêutica, o que prolonga o tempo de tratamento.

Se você é responsável por uma criança ou adolescente com dificuldades de leitura e escrita, ou profissional que a atende, não deixe de abordar a linguagem oral.

A linguagem permite a comunicação eficiente, a organização do pensamento e um meio de controlar as próprias emoções e comportamento.

Em uma interação social, as crianças precisam entender o que as pessoas dizem, sentem, controlar suas próprias emoções e comportamentos e dar respostas favoráveis.

No desenvolvimento infantil, a criança se insere em interações sociais cada vez mais complexas como brigas, conflitos, competições, festas, apresentações, etc. É importante que tenham capacidade de compreensão e expressão verbal bem desenvolvidas para atender os desafios de seus ambientes sociais. O domínio da linguagem permite à criança:

  • Saber o nome e significado das emoções: alegre, triste, confuso, irritado, surpreso, apavorado. Uma criança que sabe o que é “bravo”, quando ouve um colega dizer que está bravo, imagina como ele está e pode escolher como agir.
  • Associar o nome das emoções às expressões faciais e corporais: pulo, gestos de jóia com o polegar e fala “estou tão alegre” são atos coerentes para expressar alegria. Quando a criança vê e ouve alguém fazendo isto, entende o contexto e pode escolher como agir.
  • Associar o nome das emoções à altura da voz e velocidade da voz:a frase “não quero brincar”, dita com voz baixa e melancólica, permite à criança que a ouve, identificar que o colega não está bem, e assim apropriar sua reação como resposta.
  • Entender o conteúdo da fala do outro: ao ouvir a frase “está chovendo canivetes” , a criança entende que está chovendo muito e não se assusta, porque não vai se machucar com os canivetes. É só uma forma diferente de dizer algo.
  • Organizar a memória (as palavras, as frases, o conteúdo): buscar na memória conhecimentos já estocados permitem relacionar causas dos sentimentos próprios e dos outros, pensar se já teve uma ação que deu certo e ignorar outra que não teve bom resultado.
  • Quando a criança consegue associar o que vivencia no momento: viu a professora com expressão brava e ouviu “estou tão chateada”, com fatos passados (outras vezes, quando fez esta expressão e disse esta frase, foi por conta das notas), pode já preparar a sua resposta.
  • Recuperar regras sociais da memória: um amigo pega seu lápis sem pedir emprestado. A criança lembra que, quando pegou de volta o lápis, este amigo lhe deu um tapa e gritou e ela chorou. Desta vez, pode tentar pedir de outra forma.
  • Iniciar e responder na hora certa e manter o tema: a criança sabe que, se responde quando o amigo pergunta “de quem é o casaco”, a pessoa resolve o problema e para de gritar. Se a criança começa a falar de brinquedo quando a mãe está falando das notas, a mãe vai ficar  brava.
  • Agir: Ter coragem de falar, iniciar a comunicação, dar respostas, falar sobre um assunto, introduzir assunto novo, manter o assunto quando é de interesse dos envolvidos, pedir objetos, ações e opiniões, comentar sobre algo que gosta ou gostaria, protestar, dar opiniões, explicar suas ações, tirar dúvidas, fazer elogios, perguntar nomes, propor brincadeiras, oferecer ajuda, argumentar.

Se a criança não entende e/ou não consegue transmitir o que precisa, aumentam as chances de aparecer comportamentos como desatenção, ansiedade, agitação, brigas constantes, gritos, agressões verbais e físicas, humilhações em público, dificuldades para aprender e se socializar, problemas para fazer amizades e namorar, dificuldades para conseguir um emprego e manter-se nele, dificuldades em resolver problemas.

Para diagnóstico, é muito importante considerar todas as áreas do desenvolvimento. A queixa, problema observado pela família, conduz a consulta com especialistas. Você, pai/mãe deve questionar o especialista sobre necessidade de avaliação e outras áreas.

  • Os déficits na linguagem, na fala ou na aprendizagem, são causa ou consequência de agitação excessiva e desatenção?
  • Os comportamentos agressivos e impulsivos são causa ou consequência de atraso no desenvolvimento da linguagem?

Vamos exemplificar:

  • Pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade apresentam agitação, déficit de atenção e impulsividade (pode ter um sintoma predominante) e, por isto, PODEM ter atraso para adquirir sons e formar vocabulário; podem entender a relação entre sons e letras mas não automatizam porque não consegue armazenar muitas informações. Neste caso, fazer apenas terapia fonoaudiológica, não resolve. O tratamento fica mais extenso, mais árduo e o paciente perde oportunidades de aprendizagem.
  • Outro exemplo é uma criança com agitação e desatenção, com o diagnóstico do TDAH, recebendo intervenção para atenção e comportamento. A agitação pode melhorar e a criança se concentrar, mas continua tendo dificuldades escolares. Se existe também uma dificuldade de linguagem, apenas o tratamento especifico para os sintomas do TDAH não vão trazer os resultados esperados.
  • Crianças podem ter comportamentos agressivos ou de isolamento porque sofrem bullying por falar errado, ou não conseguir se expressar verbalmente, ou ainda tirar notas baixas. Tratar apenas o aspecto emocional sem atingir a causa, um problema de linguagem neste exemplo, não vai tirar a criança do sofrimento. Ao mesmo tempo, o fonoaudiólogo experiente consegue identificar reações emocionais consequentes aos problemas de comunicação e envolver profissionais de outras áreas na conduta terapêutica.

É nosso dever enquanto profissional estudar e conhecer as áreas do desenvolvimento e acolher integralmente a criança e o adolescente. Respeitar a especificidade de cara área profissional e ser ético diante a necessidade de encaminhamento. E ainda ser receptivo e flexível na condução de cada caso.

Fontes consultadas:

Chow, J. C. Comorbid Language and Behavior Problems: Development, Frameworks, and Intervention. School Psychology Quarterly.2018, 33(3):356-360

Curtis PR, Frey JR, Watson CD, Hampton LH, Roberts MY. 2018 Aug;142(2). pii: e20173551. doi: 10.1542/peds.2017-3551. Language Disorders and Problem Behaviors: A Meta-analysis. Peditrics

National institute of child health and human development- NICHID- Early Child Care Research Network. Pathways to reading: the role of oral language in the transition to reading. Developmental Psychology. 2005;41(2):428-42.

Stivanin L. Programa Fonoaudiológico Educacional no Ensino Fundamental I: Benefícios na Aprendizagem, Comportamento e Habilidades Sociais. Pesquisa de Pós Doutorado.2016.

Escrito por:

Luciene Stivanin

Fonoaudióloga
CRFa 2-14385
Tópicos

Transforme os Desafios do Desenvolvimento do Seu Filho em Conquistas Diárias

Conheça o ReEscreva Kids
Dê o primeiro passo

Transforme agora as dificuldades em um futuro de conquistas

Não espere mais para ver as mudanças. Agende uma orientação inicial gratuita para descobrir como podemos te ajudar.
Agendar por WhatsApp sem custoNos diga quando te chamar

Nos diga quando te chamar

Nos diga qual o melhor horário para entrarmos em contato para entender suas necessidades.