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tudo sobre dislexia

Seu filho é inteligente, mas tem dificuldade para ler?
Você sempre estudou mais do que precisava?
As provas não refletem o que você sabe?
Você se reconhece nessas descrições? Ou vê seu filho com esse comportamento?
São histórias que resumem tudo que ouvimos de pacientes há anos. Pode ser dislexia.
"Gosta de ouvir quando leem para ele, mas se recusa a ler sozinho"
"É muito inteligente, mas não acompanhou a classe na alfabetização"
"Nunca teve queixas da escola, mas agora no 6º ano fica de recuperação"
"Se as provas fossem orais, eu tiraria nota 10 em tudo"
Se a resposta for SIM, este conteúdo é para você.

Escrito por Dra. Luciene Stivanin (CRFa: 2-14385)

CRFa: 2-14385
Fonoaudióloga pela USP, Doutora em Ciências da Reabilitação e Pós-Doutora em Fonoaudiologia Educacional. Mais informações no final da página.
Tudo sobre Dislexia
Parte 1

O que é dislexia

Não é preguiça, falta de inteligência ou falta de esforço

Dislexia é um transtorno do neurodesenvolvimento, que resulta de genética, funcionamento cerebral e ambiente.

As características centrais são dificuldades na leitura e escrita que aparecem em diferentes formas conforme a idade.

  • Demora para aprender nome das letras
  • Demora para entender letra-som
  • Não aprende todas as relações letra-som

Diagnósticos que confundem com dislexia

Muitas pessoas recebem diagnósticos errados porque a dislexia parece com outras condições.
Conhecer as diferenças é crucial para o tratamento correto.

TDAH

O esforço para ler causa cansaço mental. Por isso parece falta de atenção. TDAH e dislexia podem ocorrer juntos, mas precisam ser diagnosticados separadamente para o tratamento correto.

TDL (Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem)

Alguns fazem terapia de dislexia por anos sem avançar porque não têm dislexia. Têm dificuldade de linguagem: vocabulário baixo, frases simples, compreensão lenta de textos complexos.

TPAC (Processamento Auditivo)

Treino auditivo sozinho não resolve dislexia. Muitas pessoas com dislexia têm TPAC também. Precisa treinar leitura, escrita e habilidades cognitivas juntas.

Ansiedade:

Crises de ansiedade frequentes podem ser causadas por dislexia não diagnosticada. Quando o foco fica só na emoção, a dislexia é ignorada e o diagnóstico atrasa.

Tudo sobre Dislexia
Parte 2

Não é só você

Por que muitas vezes não é visto no início?

Ao ler TÁXI como TÁCHI, seu vocabulário entra em ação e corrige: “não existe TÁCHI, é TÁXI”. A criança nem percebe que errou — e quem ouve também não nota.

No início, com textos curtos e palavras frequentes, a dificuldade não aparece. Mas será desvantajoso quando precisa estudar para provas e para ler as próprias provas.

Sabe todo o conteúdo, mas ainda assim tira nota baixa

“Sabe todo o conteúdo, mas tirou nota baixa. Quando retomamos as questões, ele sabia tudo”. O que aconteceu aqui? Não deu tempo de reler a questão. Veja alguns exemplos reais de enunciados:

Enunciado curto:

“Cite duas características do personagem.”

O aluno lê e trava. Relê 2-3 vezes. Perde tempo enquanto outros já responderam. O conhecimento existe, mas o tempo não permite.

Enunciado confuso:

“Justifique sua resposta.”

Lê rápido, não capta o comando. Marca a resposta e passa. Perde pontos porque não processou a instrução em tempo real.

Múltiplas instruções:

“Considerando o texto anterior e conhecimentos de aula, analise as afirmativas e assinale apenas as corretas.”

36 palavras. O aluno relê várias vezes. O tempo acaba antes de terminar.

Instrução longa:

“Leia o trecho, escreva parágrafo de 5-8 linhas defendendo seu ponto de vista com dois argumentos.”

Múltiplos comandos encadeados. Ele relê para garantir que não esqueceu nada. O tempo se esgota.

Interpretação complexa:

“Observe o gráfico de temperatura em 3 cidades. Compare dados e responda: qual teve maior amplitude térmica? Justifique com dados.”

Precisa: 1) observar, 2) comparar, 3) interpretar “amplitude”, 4) justificar. Ciclo de releitura consome o tempo para responder.

Tudo sobre Dislexia
Parte 3

Como identificar

Sintomas em crianças pequenas

Antes da alfabetização formal

  • Dificuldade com rimas infantis
  • Dificuldade em prestar atenção/ouvir
  • Gosta histórias, pouco interesse em letras

Sintomas em crianças com idade escolar

Durante a alfabetização e depois

  • Processamento lento em linguagem
  • Leitura com erros e/ou lenta
  • Falhas na fluência (tropeça)

Sintomas em jovens e adultos

A dislexia não desaparece na adolescência.

  • Dificuldade com pontuação/gramática
  • Ideias redundantes ou sem coerência
  • Escreve muito pouco
Tudo sobre Dislexia
Parte 4

Diagnóstico

Transparência no processo de diagnóstico

Qualquer queixa escolar merece atenção.

Pergunte: como está a leitura, escrita e linguagem? “Lê bem” e “fala bem” não são suficientes.

O diagnóstico requer avaliação detalhada com múltiplos profissionais. Cada um responde uma pergunta diferente.

O que faz atrasar o diagnóstico

Frases como “logo aprende” ou “é inteligente, não é nada” são comportamentos que mascaram dislexia.

Tudo isso atrasa anos de diagnóstico.

  • Escolas que não usam o método estruturado de alfabetizado, que não permitem observar a evolução da aprendizagem
  • Considerar que a criança é inteligente e, por isso, não tem nada

Condutas profissionais inadequadas ou negligência

Agitação, agressividade, recusa, baixa autoestima, ansiedade, distração podem ser consequências de dificuldades de leitura e escrita, não observadas por professores e pais.

Como exemplos reais, temos, infelizmente, avaliações onde o profissional:

  • Pediu para o paciente ler, e este leu bem, e a dislexia foi descartada. Mas era um livro infantil (sorte que a mãe percebeu)
  • Detectou bom QI e dificuldades significativas de atenção, e estas foram tidas como as causas de notas ruins. Até poderia ser, mas e se a leitura também fosse ruim?

O que acontece quando o diagnóstico atrasa

Quanto mais tarde, mais intensivo o tratamento.
Precisará treinar leitura e recuperar conteúdo perdido e compensar cansaço cognitivo.

A ansiedade e depressão geralmente aparecem.

  • Tratamento muito mais intensivo
  • Necessário aulas particulares de reforço
  • Acúmulo de conteúdo escolar perdido

Os profissionais e suas avaliações

O diagnóstico completo envolve fonoaudiólogo, psicopedagogo, neuropsicólogo e médico.

Cada profissional responde uma questão diferente sobre como a pessoa processa informação.

Avaliação fonoaudiológica e/ou psicopedagógica

Leitura e escrita: quais tipos de erros, velocidade e fluência, rotas usadas (fonológica e lexical).

Avaliação fonoaudiológica

Vocabulário, gramática, compreensão e expressão e o processamento fonológico (como os sons estão organizados na memória).

Avaliação audiológica

Audiometria e processamento auditivo.

Avaliação neuropsicológica

Potencial intelectual, características emocionais, habilidades cognitivas — atenção, memória, funções executivas — e identificar comorbidades como TDAH ou ansiedade.

Avaliação oftalmológica

Avaliação médica

Com profissional da área do neurodesenvolvimento vai investigar causas, descartar outras condições e, quando necessário, prescrever medicação para comorbidades.

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Tudo sobre Dislexia
Parte 5

Tratamento

Esperança e realismo sobre o tratamento

Sim, tratamento funciona. Mas não é simples e não é rápido.

Exige equipe integrada (família, escola, profissionais), adaptação de ambiente, acompanhamento consistente e, frequentemente, suporte emocional.

Tipos de terapia

O que o tratamento envolve:

  • Intervenção leitura/escrita
  • Treino processamento auditivo
  • Estimulação percepção visual

O coração do tratamento

O objetivo é reduzir os erros da leitura, aumentar a velocidade e fluência leitora.

Quando a leitura fica mais automática, o leitor consegue usar sua “energia” para interpretar o texto. Isto cansa menos, traz mais interesse para leitura e fixação do que foi lido.

Quem faz cada tipo de atendimento

Profissionais diferentes, objetivos complementares.

Melhor resultado quando trabalham juntos de forma integrada.

Fonoaudiólogo

Especialista em linguagem, cognição e aprendizagem. Desenvolve consciência fonológica e organização dos sons, as relações letra-som, memorização e automatização da leitura e escrita. Estimula vocabulário, sintaxe e fala. Faz treino auditivo quando há alteração no processamento auditivo central.

Psicopedagogo

Treina a leitura e escrita, estimula percepção visual, habilidades cognitivas como atenção, memória, raciocínio e funções executas. Trabalha a organização dos estudos, preparo para provas e vínculo com aprendizagem e escola. O objetivo é desenvolver a autonomia.

Psicólogo

Suporte emocional e comportamental. Ajuda a reconhecer pontos fortes e fracos, se engajar no tratamento, fortalecer autoestima. Essencial porque dislexia gera frustração que compromete o tratamento.

Psicomotricista

Indicado quando há alterações motoras (comum em dislexia). Treina coordenação, preensão do lápis e planejamento motor para melhorar qualidade da escrita.

Quantas vezes por semana?

Depende de: gravidade, comorbidades (TDAH, ansiedade), apoio familiar/escolar, demandas escolares e resposta ao tratamento.

Não existe fórmula única.

  • Gravidade das dificuldades varia
  • Comorbidades exigem frequência maior
  • Apoio familiar/escolar reduz sessões

Adaptações que realmente ajudam

Cada paciente precisa de uma forma de adaptação e/ou flexibilização escolar.

Uma boa adaptação depende das características cognitivas, linguísticas e emocionais de cada criança, e das demandas escolares.

Uma adaptação mal planejada pode piorar a situação. Veja exemplos:

Provas orais para um aluno tímido pode deixa-lo ansioso.

Além de o desempenho ser ruim, desencadeia-se uma questão emocional que poderia ser evitada.

O estudante pode ficar mais "relaxado" se tiver adaptações?

Depende do perfil de engajamento e da relação do aluno com o aprendizado — que não serve apenas para tirar notas boas.

Não descontar pontos por erros ortográficos é uma recomendação comum.

Em alguns casos, descontar um pouquinho pode ajudá-lo, pois cria um desafio.

Não adianta ter adaptações se o foco não for o aprendizado.

Histórias reais de transformação

Sim. 23 anos de experiência clínica mostram evolução consistente quando há equipe integrada e ambiente acolhedor.

Mãe de criança de 12 anos
A princípio senti um aperto no coração, mas depois, logo em seguida, um alívio por finalmente entender tudo o que tinha acontecido.... Então, ela soube o que tinha e continuou o acompanhamento, sem rótulos, sem marcas, sem culpas, apenas consciente da situação e com disposição para se conhecer melhor, entender seus limites e potencialidades e saber lidar melhor com tudo isso.
Mãe de criança de 15 anos
Queria compartilhar algo especial contigo. O D, por iniciativa própria, está fazendo aulas particulares de redação. A professora integra a equipe que faz correção de provas de redação do ENEM. Ele fez uma redação no fds, ela corrigiu hoje, dentro dos critérios do próprio ENEM, e ele tirou 860! Ele está no nono ano. Estou feliz, orgulhosa e serei eternamente grata.
Mulher de 52 anos
Desde sempre tive “pânico” em ler em público e todas as vezes que precisei me expor nesta tarefa uma espécie de taquicardia me invadia, ao ponto do tom da minha voz mudar e minha vista embaralhar. Desde o primeiro contato com a ReEscreva, me senti muito acolhida. Hoje, depois de alguns meses de terapia, tenho a certeza da dislexia. E como é bom saber disto! Na verdade, é LIBERTADOR! Sinto-me muito mais segura e preparada para o futuro.

Autora: Dra. Luciene Stivanin

CRFa: 2-14385

Fonoaudióloga apaixonada por neurodesenvolvimento e aprendizagem, e idealizadora da Clínica ReEscreva.

Sua vasta experiência e paixão pelo neurodesenvolvimento e aprendizagem são a base da nossa clínica, inspirando um cuidado que busca transformar vidas.

  • Formação Acadêmica: Fonoaudióloga pela USP, Doutora em Ciências da Reabilitação e Pós-Doutora em Fonoaudiologia Educacional.
  • Atuações Relevantes: Professora de cursos de pós graduação nas áreas da saúde e educação, Coordenadora do projeto de intervenção em aprendizagem do Lar das Crianças (CIP).
  • Experiência Marcante: Atuou como fonoaudióloga e coordenadora técnica no Programa Equilíbrio – Instituto de Psiquiatria do HC-FM-USP, um programa multidisciplinar para crianças e adolescentes com dificuldades e transtornos de linguagem e aprendizagem.

Referências consultadas

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION – APA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Becker N, Vasconcelos M, Oliveira V, Santos FCD, Bizarro L, Almeida RMM, Salles JF, Carvalho MRS. Genetic and environmental risk factors for developmental dyslexia in children: systematic review of the last decade. Dev Neuropsychol, 42(7-8):423-445, 2017.

Boyes ME, Leitão S, Claessen M, Badcock NA, Nayton M. Correlates of externalising and internalising problems in children with dyslexia: An analysis of data from clinical casefiles. Australian Psychologist, 55 (1), 2020.

Carceres PCP, Covre P. Impacto do diagnóstico precoce e tardio da dislexia – compreendendo esse transtorno. Rev. psicopedag. [online] vol.35, n.108, 296-305, 2018.

Definition of Dyslexia. Baltimore: International Dyslexia Association, 2025. Disponível em: https://dyslexiaida.org/definition-of-dyslexia/ Acesso em: 8 mar. 2026.

Dyslexia. Bracknell: British Dyslexia Association, s.d. Disponível em: https://www.bdadyslexia.org.uk/dyslexia. Acesso em: 8 mar. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-10. 10. ed. São Paulo: EDUSP, 1997.

Simos PG, Fletcher JM, Bergman E, Breier JI, Foorman BR, Castillo EM et al. Dyslexia-specific brain activation profile becomes normal following successful remedial training. Neurology, 58(8):1203-13, 2020.

van Vierse S, Bree E, Jong PF. Protective Factors and Compensation in Resolving Dyslexia. Scientific Studies of Reading 23(2):1-17, 2019.

Wolf M. Proust and the Squid: The Story and Science of the Reading Brain. New York: HarperCollins, 2007.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. International Classification of Diseases for Mortality and Morbidity Statistics (11th Revision – ICD-11). Geneva: WHO, 2019. Disponível em: https://icd.who.int.

Dra. Luciene Stivanin, diretora da clínica ReEscreva
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